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Quando a malária dá câncer

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Quando a malária dá câncer

26 de agosto de 2015
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Há pelo menos 50 anos, médicos e cientistas percebem que existe uma relação entre a malária e o desenvolvimento do linfoma de Burkitt. O câncer de sangue, muito comum em crianças, também é mais frequente na África equatorial, que vive a maior endemia da infecção do Plasmodium falciparum, causador da doença parasitária. Uma equipe internacional de pesquisadores, incluindo brasileiros, conseguiu, por meio de experimentos com camundongos, encontrar uma explicação biológica para a perigosa ligação entre as enfermidades. Os resultados foram divulgados na edição de hoje da revista Cell.
 
Davide Robbiani, pesquisador da Universidade Rockefeller, nos Estados Unidos, e autor principal do trabalho, explica que os linfomas são neoplasias malignas que têm origem nas células linfáticas e mais frequentes em pacientes cronicamente infectados. Nas cobaias geneticamente modificadas para terem malária, os investigadores identificaram um problema envolvendo o gene AID (Activation-induced cytidine deaminase), ligado à produção de anticorpos. Segundo os cientistas, se há falhas nesse mecanismo, existe o risco de surgirem alterações no DNA dessas células de defesa, que podem passar a ser cancerígenas.
 
“O estudo teve como objetivo lançar uma nova luz sobre esse fenômeno e compreender como ele acontece, como é que a infecção crônica induz danos no DNA dos linfócitos B, gerando o desenvolvimento de linfomas”, detalha Robbiani. As cobaias foram infectadas com o Plasmodium chabaudi (vírus semelhante ao da malária, mas que contamina ratos). Ao se tornar crônica, a contaminação induziu a uma expansão prolongada da ação do AID, um mecanismo que pode causar mutações no DNA. “Vimos que o parasita induz a rápida proliferação de células B, uma forma ativada de linfócitos B que expressam o AID. No entanto, (a ação do) AID não é muito precisa, provoca quebras de DNA e erros ao longo do genoma, levando ao linfoma”, diz o autor.
 
Robbiani, porém, avalia que a possibilidade de uma intervenção genética para “acalmar” o AID é problemática. Isso porque a ação do gene no corpo humano é uma espécie de “risco necessário”. “Você precisa dele para criar o repertório de potentes anticorpos para combater a infecção da malária, mas o dano ao DNA provocado pelo AID pode ser prejudicial e levar à formação do câncer”, justifica.
 
Segundo a equipe de cientistas, a descoberta pode ajudar a desvendar melhor como o câncer é causado, contribuindo para futuros tratamentos mais eficientes. “Trata-se de uma doença complexa, e esse artigo contribui no sentido de conhecer mais um mecanismo ligado ao desenvolvimento dela”, justifica Israel Tojal da Silva, chefe do Laboratório de Biologia Computacional e Bioinformática do Centro Internacional de Pesquisa A.C. Camargo Câncer Center, em São Paulo, e um dos coautores do estudo.
 
Disseminado
 
O Presidente da Federação Internacional de Medicina Tropical, Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro conta que, por muito tempo, autores ingleses perceberam que existia uma grande coincidência geográfica entre a ocorrência de malária e a do linfoma de Burkitt. O trabalho publicado na Cell, segundo o também professor e pesquisador titular do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), além de esclarecer essa questão, poderá ajudar no enfrentamento de outras doenças com mecanismos semelhantes.
 
O especialista explica que é comum a ocorrência de falsos positivos em pacientes com malária. “Eles fazem testes para outras doenças, como o HIV, que mostram resultados indicando a enfermidade, mesmo que não a tenham. Isso seria causado justamente pela ativação das células B”, detalha o professor, que não participou do estudo.
 
Ribeiro também frisa que o novo trabalho pode ajudar em estratégias de tratamento mais eficazes contra o câncer. “Evidentemente que, se conhecemos o mecanismo por trás da indução do tumor, isso nos faz esperar que surjam manipulações genéticas com base nesse conhecimento, podendo também desvendar a predisposição de determinadas populações a terem esse problema”, frisa o especialista.
 
O próximo passo do grupo internacional de cientistas é justamente esse: aprofundar a investigação em busca de novas possibilidades de intervenções médicas. “Entender por que o AID causa danos ao DNA é uma área ativa de investigação explorada por vários grupos de pesquisa, incluindo o nosso. Estratégias para limitar esse efeito colateral poderiam ser úteis para diminuir o risco de pacientes cronicamente infectados desenvolverem esse linfoma. Essa é a nossa próxima etapa”, diz Robbiani.
 
Fonte: Correio Braziliense
 
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