2 de outubro de 2013

Implantes malfeitos ameaçam testes com células-tronco

Maggie Alejos chegou aqui em junho, vinda de St. Anne, no Estado do Illinois, com um cheque de US$ 13.500 (R$ 29.700) em nome do Instituto de Medicina Regenerativa. Magra, com um tubo de oxigênio preso sobre o lábio superior, Alejos, uma enfermeira do exército aposentada de 65 anos, enfrenta o enfisema há 12.

Em um hospital aqui, os médicos extraíram cerca de 200 gramas de gordura de suas coxas, esperando coletar cerca de 130 milhões de células-tronco para implantá-las em seus pulmões.

Em toda a internet — onde Alejos soube do instituto em Tijuana –, as células-tronco de adultos são promovidas como a cura para tudo, de pele flácida a medulas espinhais seccionadas.

Na superfície, a alegação é plausível. Cientistas descobriram que a gordura, a medula óssea e outras partes do corpo contêm células-tronco, células imaturas que podem se rejuvenescer.
Mas ainda não foi provado que essas células possam se regenerar em qualquer lugar onde sejam colocadas, ou sob que condições isso poderia ocorrer. E também permanecem questões de segurança.

Mesmo assim, isso não atrapalhou a ascensão de uma indústria internacional que atende a clientes que pagam dezenas de milhares de dólares por uma chance de conseguir um milagre pessoal.

O doutor Hesham Sadek, do Centro Médico Southwestern da Universidade do Texas em Dallas, que estuda a regeneração do músculo cardíaco, teme que o dilúvio mercadológico torne difícil para os pacientes distinguirem entre ciência e engodo. “Isto realmente tem o potencial de minar a legitimidade de todo o campo”, disse.

A Sociedade Internacional para Pesquisa de Células-Tronco emitiu uma declaração segundo a qual o uso dessas células fora de ambientes científicos é “uma ameaça para o bem-estar e a autonomia do paciente e para o processo científico”.

Tijuana, no norte do México, tem cerca de 200 clínicas que oferecem terapia de células-tronco adultas. O doutor Javier Lopez, fundador do Instituto de Medicina Regenerativa, nasceu e estudou em Tijuana, mas viveu e trabalhou do outro lado da fronteira, em San Diego, na Califórnia, por mais de 30 anos, principalmente como administrador de centros de saúde.
Ele diz que dirige o instituto dentro do quadro aceito de testes clínicos: os pacientes assinam formulários de autorização, reconhecendo que o tratamento é experimental. Os estudos são registrados na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.

Ser aceito para o tratamento exige mais que dinheiro. Os protocolos e procedimentos são aprovados pelo Conselho de Revisão Institucional (IRB, sigla em inglês), no Hospital Angeles Tijuana, e são administrados por médicos do hospital. “O foco de nosso teste, desde o primeiro dia, é para a segurança”, diz o doutor Lopez.

Mas Leigh Turner, um bioético da Universidade de Minnesota, diz que o instituto ultrapassa os limites entre teste e tratamento. O formulário de consentimento do paciente “não seria aprovado por um IRB americano competente”, disse o doutor Turner, e os depoimentos em seu site na web dão ênfase apenas aos resultados.

Além disso, estudar pacientes que pagam mina a validade dos testes científicos, segundo o doutor Turner. A amostragem de pacientes é inclinada para os que têm meios, e seu investimento financeiro pode ampliar um efeito placebo já forte.

O doutor Lopez diz que os cientistas no México não têm o apoio à pesquisa do governo disponível nos EUA, o que deixa os estabelecimentos como o dele sem alternativa além de cobrar dos pacientes.

Há poucas evidências que indiquem se os tratamentos com células-tronco de adultos oferecidos funcionam. Paul Knoepfler, um pesquisador de células-tronco na Universidade da Califórnia em Davis, diz que a falta de dados é preocupante.

“Temos um enorme entusiasmo sobre o potencial da terapia com células-tronco”, disse o doutor George Q. Daley, que estuda as células-tronco para doenças do sangue na Escola de Medicina de Harvard.

“Dito isso, elas não são agentes mágicos que percorrem seu corpo e consertam as coisas. É frustrante ver pessoas que, mesmo bem intencionadas, não agem no melhor interesse de seus pacientes.”

De volta a St. Anne alguns dias depois do procedimento, Alejos teve um breve surto de pneumonia no verão, mas em geral não se sente melhor nem pior que antes do tratamento. Ela sabe que não será curada. Seus sonhos são modestos, como ficar livre do oxigênio o suficiente para ir ao cinema.

Fonte: Folha de São Paulo

2 de outubro de 2013

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